O Grupo Hospitalar Conceição (GHC) inaugurou, nesta quarta-feira, 19 de agosto, o Ambulatório Prisma, um espaço dedicado ao atendimento de crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para marcar o momento, foi realizada uma cerimônia no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no Centro Administrativo do GHC, com a presença de trabalhadores, autoridades e imprensa.
Na primeira fase, já iniciada, o serviço oferecerá assistência aos filhos de trabalhadores do GHC que aderiram ao Regime Especial de Trabalho (RET), concedido aos funcionários que são pais de crianças com deficiência, como o autismo. A ideia é que o modelo seja testado com o objetivo de expansão para os demais usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) em 2027.
“Temos, no sistema de saúde, uma grande necessidade e poucos serviços abertos para cuidar das pessoas com TEA. Nessa primeira fase, vamos criar protocolos de cuidado clínico, definir processos, fluxos e treinamento de profissionais. Depois, vamos contratualizar com municípios e abrir o atendimento para todas as crianças e adolescentes”, disse Gilberto Barichello, diretor-presidente do GHC.
Rosana Reis Nothen, diretora de Atenção à Saúde do GHC, destacou que o ambulatório tem a capacidade de reunir os serviços necessários aos pacientes. “Entre os desafios está a organização familiar, que é penosa e trabalhosa para pais e cuidadores de crianças com autismo. Isso se soma a uma peregrinação em vários serviços de saúde. Centralizar todo esse atendimento em um lugar é importante para a comodidade da família. É um tratamento que vai permitir que a criança desenvolva potencialidades”, pontuou.
Em sua fala, Laís Garcia, gerente de Internação do Hospital Criança Conceição (HCC), explicou que a escolha do nome do ambulatório foi pensada em referência ao foco do serviço. “O prisma é um objeto que refrata a luz, permite que ela se mova em velocidades e direções diferentes. Faz com que aquele feixe de luz branca, que parecia ser só isso, adquira todas as cores do arco-íris depois de passar pelo prisma. Nosso ambulatório tem esse objetivo: não enquadrar as nossas crianças em um modelo, mas permitir que as cores delas brilhem quando passarem por nós”, exemplificou.
A coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Educação, Infância e Juventude do Ministério Público (MPRS), Cristiane Corrales, disse que a criação de espaços para o cuidado de pacientes com TEA garante direitos humanos básicos. “É um grande desafio entender quais são as melhores propostas para essas crianças e adolescentes. Temos muitas terapias que podem funcionar para uma pessoa e não para outra. Então, esse aspecto da individualidade proposto pelo ambulatório é muito importante para o sucesso do tratamento”, pontuou.
Bruna Minussi Zanini, defensora pública do Estado do Rio Grande do Sul, destacou que, com o novo espaço, o SUS ganhou uma referência na assistência a pessoas com autismo. “Sabemos que o diagnóstico e o tratamento precoce são fundamentais para o futuro das crianças com TEA, para que elas superem barreiras que a sociedade impõe a pessoas neurodivergentes. Isso depende muito do trabalho que é feito a partir de espaços como o Ambulatório Prisma”, acrescentou.
Como vai funcionar
Vinculado ao HCC, o ambulatório busca proporcionar um ambiente seguro e com ajustes às necessidades dos pacientes, incluindo o controle de luzes e a atenuação de sons. Os primeiros atendimentos começaram no início de julho, e a estimativa é que 55 crianças, de zero a 14 anos incompletos, utilizem as dependências nesta primeira etapa de operações.
“O acolhimento e a orientação são essenciais para que as famílias não precisem caminhar sozinhas diante de tantos desafios que surgem no desenvolvimento de uma criança com TEA. Como mãe, sei o quanto faz diferença encontrar um lugar onde há escuta, onde nossos filhos sejam enxergados para além de um diagnóstico e onde existe uma equipe preparada para compreender suas singularidades. Precisamos de respeito e inclusão”, afirma Daiane Pinheiro, representante do Grupo de Pais e Mães Atípicos TEA do GHC.
Com funcionamento às segundas e quintas-feiras, das 7h às 19h, o ambulatório está instalado no prédio da endocrinologia pediátrica do HCC. O espaço tem uma recepção, três consultórios, uma cozinha experimental e uma sala sensorial que abriga equipamentos de cunho lúdico e de teste motor.
“Todos os graus de suporte serão atendidos nos nossos serviços. As terapias vão ser pensadas para cada criança. A ideia não é substituir o atendimento que eles têm na rede, mas complementar a assistência. Queremos ofertar outras especialidades para dar um suporte maior à criança”, explica Jeniffer Dernitz Rosa, enfermeira do ambulatório.
O quadro funcional é composto por profissionais das áreas de neuropediatria, psiquiatria, psicologia, terapia ocupacional, fonoaudiologia, fisioterapia, nutrição, serviço social e enfermagem. O trabalho tem como metas minimizar déficits de interação e de comunicação, facilitar a aquisição de habilidades de adaptação e prevenir comportamentos que interfiram nas funções do cotidiano da criança.
“Ter uma equipe multidisciplinar garante que a criança tenha todas as suas necessidades atendidas. Desse modo, os nossos profissionais vão seguir o mesmo plano terapêutico e conhecer o paciente. A ideia de termos esse espaço é garantirmos que a criança seja vista em sua totalidade, com terapias pensadas individualmente. Além disso, o ambulatório também vai acompanhar as famílias”, acrescenta a enfermeira.
Para viabilizar uma abordagem integral e com recortes personalizados, o Prisma conta com a sala sensorial equipada com ferramentas táteis, itens de pareamento lógico e peças para aferição de motricidade ampla.
"Todos esses recursos físicos foram pensados para conseguirmos avaliar a criança como um todo: as questões sensoriais, psicológicas e motoras. Precisamos desse olhar ampliado para perceber de fato essa criança, identificando suas potencialidades e dificuldades", relata Darice Coco Rodrigues, terapeuta ocupacional do Prisma.
Expansão para o SUS
O planejamento do ambulatório prevê três etapas de avanço da capacidade. Encerrado o ciclo de testes, com regime de atendimento para dependentes dos trabalhadores do GHC (o atual), a segunda fase fará a absorção dos pacientes que realizam avaliações no HCC e que estão na lista de espera para o ingresso em terapias.
Na terceira fase, o objetivo é vincular o setor ao Gerenciamento de Consultas (Gercon), gerando o encaminhamento de vagas para o fluxo da rede de saúde da prefeitura de Porto Alegre e do governo do Estado, o que é projetado para ocorrer em 2027.
Legislação
A estruturação do espaço e a adoção do Regime Especial de Trabalho são fundamentadas na legislação. A Lei 12.764/12, conhecida como Lei Berenice Piana, instituiu a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, determinando o direito ao diagnóstico e ao tratamento pelo Sistema Único de Saúde.
Já a Lei 13.370/2016 reduziu a jornada de trabalho de servidores públicos com filhos autistas. A lei autorizou que funcionários da esfera federal adequassem suas cargas horárias sem exigência de compensação de horas ou redução de vencimentos, amparando a aplicação do RET dentro da instituição.
O desenvolvimento do ambulatório cumpriu etapas de um cronograma de planejamento ao longo dos últimos meses. Em abril de 2026, a instituição formou um grupo de trabalho para organizar a ocupação física do espaço. Em maio, a administração concluiu o desenho assistencial e a aprovação das vagas para contratação de profissionais. As adequações da área, assim como as compras de equipamentos e de materiais, foram concluídas em julho.
Créditos: Texto: Vinícius Coimbra / Fotos: João Gabriel Lopes