A atuação de nutricionistas em assuntos de saúde, comportamento populacional e desafios climáticos foi o foco da 3ª Jornada de Nutrição do Hospital Nossa Senhora da Conceição (HNSC). O evento foi realizado nesta sexta-feira, 21 de agosto, no Auditório Jahyr Boeira de Almeida, no prédio administrativo do GHC, em Porto Alegre.
Com a temática “Transformando a alimentação hospitalar: ciência e inovações no cuidado nutricional”, a jornada teve como primeira palestrante Suzi Barletto Cavalli, doutora em Alimentos e Nutrição e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que falou sobre mudanças climáticas e sistemas alimentares.
Ela citou que 56% dos adultos brasileiros têm obesidade ou sobrepeso, enquanto 50 milhões de pessoas no país não podem pagar por uma alimentação saudável (23,7% da população), segundo dados do relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês).
“Integrar debates sobre mudanças climáticas e sistemas alimentares com dietas saudáveis e sustentáveis é um dos maiores desafios hoje. O aumento da temperatura do planeta é uma relação que movimenta tudo, impacta a produção agrícola, a saúde animal, a disponibilidade da água e vai influenciar a vida, principalmente, das pessoas mais vulneráveis”, pontuou. Ela também abordou o sistema agroalimentar no Brasil, o uso de agrotóxicos, alimentos transgênicos, ultraprocessados e novas biotecnologias.
Reformulação com agricultura familiar
Coordenadora do Serviço de Nutrição e Dietética do HNSC, Marília Unello Garcez participou da jornada com uma fala sobre como a alimentação coletiva pode colaborar com os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da Organização das Nações Unidas (ONU). “O hospital é um lugar de cuidado, ciência, de formação e de produção de conhecimento. Mas é também responsável pelo equilíbrio social, com a compra de alimentos, a contratação de serviços e o relacionamento com produtores, pacientes, trabalhadores e famílias. Isso significa que a gestão da alimentação hospitalar pode ser também uma estratégia de inovação e transformação social”, disse a nutricionista.
Nesse contexto, a profissional mostrou como o HNSC reformulou o cardápio oferecido a pacientes e funcionários a partir de 2023, com a troca de alimentos industrializados por produtos da agricultura familiar. Atualmente, a instituição trabalha com 6,3 mil agricultores locais.
“Excluímos as carnes ultraprocessadas, como presunto e salsicha, e incluímos preparações com frango e hambúrguer caseiro, feitos pelos nossos cozinheiros. Tivemos a exclusão da margarina e a inclusão do requeijão caseiro, também feito no hospital. Não utilizamos maionese industrializada, que foi trocada por uma maionese desenvolvida pela nossa equipe, à base de leite e ovos cozidos. Esses são alguns dos exemplos que fazem com que tenhamos um cardápio mais saudável”, pontuou.
Ainda sobre o tema, Marília Unello Garcez citou desafios para a alimentação coletiva saudável: gerenciamento de múltiplos fornecedores, logística do abastecimento, adequação de cardápios e cultura alimentar da população brasileira.
Condutas técnicas para pacientes oncológicos
O evento teve um coffee break com alimentos produzidos pelo serviço de nutrição do hospital. Depois, a nutricionista Aline Kirjner falou sobre a alimentação de pacientes em tratamento oncológico. Ela detalhou as “dietas da moda”, que têm apelo midiático e costumam ser caracterizadas por restrição de macro e micronutrientes, promessas de resultados rápidos, pouca personalização e uso de regimes rígidos sem supervisão adequada.
“Para o nutricionista, é importante deixar claro que nutrição não cura o câncer. Ela atua para oportunizar um processo de estado nutricional capaz de ajudar na resposta do corpo ao tratamento. A nutrição oncológica deve se basear em evidências científicas, em biomarcadores individuais, no estado clínico, metabólico e emocional do paciente. Precisamos de ciência, e não de simplificação”, disse.
Fortalecer o trabalho profissional
As chamadas canetas emagrecedoras foram o foco durante a tarde da jornada, com a palestra da nutricionista e doutora em Hepatologia Sabrina Fernandes. Ela citou exemplos de usos indiscriminados do medicamento, que tem sido aplicado no tratamento da obesidade.
“Quando usamos a expressão 'canetas emagrecedoras', essa forma pejorativa e popularizada coloca uma tecnologia que veio para tratar doenças graves como se fosse algo fútil. Essa medicação não é um atalho para a perda de peso, é uma ferramenta para o tratamento da saúde e do metabolismo. Se o médico indicou, prescreveu e acompanhou a pessoa, sou favorável ao uso. O problema é a utilização sem acompanhamento especializado, pois é o manejo nutricional que garante o sucesso e a sustentabilidade do tratamento”, disse.
Participaram da mesa de abertura da jornada de nutrição Gilberto Barichello, diretor-presidente do GHC, Alex Borba, gerente de Gestão de Pessoas da instituição, e Alvarim de Souza Severo, gerente de Administração do HNSC.
Créditos: Vinícius Coimbra (texto). João Gabriel Lopes (fotos).