Em um movimento histórico pela equidade e contra o racismo religioso no ambiente hospitalar, o Hospital Geral de Bonsucesso sediou, em 26 de agosto, a roda de conversa "Espiritualidade e Saúde, Caminhos de Cura e Cuidado". O evento, promovido pela Comissão Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (CEPPIR), celebrou o Orixá Omolu — divindade das religiões de matriz africana associada à cura — e colocou em pauta a urgência de integrar o cuidado clínico ao respeito à fé dos pacientes. O encontro reuniu trabalhadores do hospital, gestores e importantes lideranças de terreiro, apontando caminhos práticos para tornar os hospitais ambientes acolhedores para pessoas de todas as crenças.
A história da cura no Brasil
Para entender o estigma que ainda assombra as religiões afro-brasileiras, é preciso olhar para o passado. Doté Cláudio de Iemanjá, historiador e sacerdote, relembrou que, muito antes da estruturação de um sistema de saúde no Brasil, eram os povos de terreiro e indígenas que curavam a população. "A gente tinha uma realidade de um país que era curado por pais e mães de santo, chefes indígenas, rezadeiras e parteiras. O Brasil era cuidado por essas pessoas", explicou Cláudio. Ele destacou que essa prática ancestral passou a ser criminalizada a partir do Código Penal de 1890, um reflexo do racismo estrutural que perdura até hoje, disfarçado de regras institucionais. Cláudio defende que os símbolos do candomblé e da umbanda, como fios de contas (guias) e roupas brancas, não são apenas adornos, mas partes sagradas que podem compor o corpo e influenciar diretamente na saúde mental e na recuperação do paciente.
Fé barrada na porta da UTI
O impacto desse racismo institucional foi ilustrado pelo relato da Iyálorixá Gisele de Oxumaré. Ela compartilhou a angústia vivida há alguns anos, quando uma filha de santo teve um bebê prematuro que adoeceu gravemente e foi internado na UTI de uma maternidade. Como mãe de santo, Gisele identificou a necessidade espiritual de realizar uma ritualística, mas foi barrada na entrada do hospital por causa de suas vestimentas. "Fui barrada com essa roupa. Falei, 'vou dar um jeito'. Fui em casa, troquei de roupa, botei o que precisava dentro de uma bolsa, e entrei camuflada. Fiz o que tinha que fazer. Uma hora depois, descobriram o que a criança tinha", relatou Gisele.
Ela questionou a disparidade de tratamento entre as religiões: enquanto pastores e padres circulam livremente pelas UTIs, sacerdotes de matriz africana ainda são vistos com desconfiança e frequentemente associados a práticas demonizadas. Sobre essa demonização, o Pai Tiago de Xangô foi categórico ao afirmar que a raiz do problema é exclusivamente o preconceito racial. Ele apontou a hipocrisia de uma sociedade que consome elementos da cultura afro-indígena — como pular as sete ondas ou usar roupas de cores específicas no Ano Novo — mas nega e discrimina publicamente a fé que originou essas tradições.
Apesar das adversidades, o evento marcou um ponto de virada institucional. Fernanda Vargas, presidenta da CEPPIR do Grupo Hospitalar Conceição, compartilhou os avanços alcançados na sede do Grupo, em Porto Alegre, e que agora estão sendo desenhados para o Rio de Janeiro.
Entre as principais ações debatidas para implementação estão:
Protocolo de visita religiosa: a criação de diretrizes que garantam o acesso de pais de santo e lideranças de matriz africana aos leitos, sem que isso subtraia o tempo de visita familiar do paciente.
Preservação de símbolos sagrados: treinamento para que as equipes médicas não cortem ou joguem fora guias e cordões de conta durante procedimentos cirúrgicos, entendendo que esses itens fazem parte de um ritual de passagem e proteção.
Espaços inter-religiosos: a transformação das tradicionais capelas católicas ou evangélicas dos hospitais em espaços plurais. Fernanda citou um evento recente no Sul, dedicado a Ogum, onde mais de 800 pessoas receberam passes dentro da instituição.
Créditos: Assessoria de Comunicação Social HGB/GHC