A construção de ações estruturantes para promover diversidade, equidade e inclusão nas estatais federais ganhou novos encaminhamentos nesta terça-feira (25), durante a 3ª Reunião do Grupo Executivo do Pacto pela Diversidade, Equidade e Inclusão, sediada pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC), em Porto Alegre.
Ao longo do dia, representantes de empresas como Caixa Econômica Federal, Transpetro, Banco da Amazônia, BNDES e órgãos do governo federal avaliaram avanços, alinharam estratégias e consolidaram diretrizes para os próximos ciclos do Pacto, que tem adesão voluntária e vem sendo construído de forma colaborativa entre as instituições.
Durante a reunião, o diretor-presidente do GHC, Gilberto Barichello, reforçou o papel da instituição como referência no Sistema Único de Saúde (SUS) e como articuladora de políticas públicas. Segundo ele, a instituição atua com foco na população mais vulnerável, garantindo acesso integral e gratuito à saúde. “Somos 100% SUS e atendemos uma população com múltiplas vulnerabilidades. Nosso compromisso é garantir dignidade, ouvindo trabalhadores e usuários e construindo soluções de forma participativa”, afirmou.
Na ocasião, Barichello ainda anunciou a criação de uma nova subsidiária voltada exclusivamente para ensino, pesquisa e inovação. “Será uma estatal dedicada à ciência, tecnologia e transformação digital na saúde, com potencial de se tornar uma referência nacional e internacional”, destacou.
Os impactos das desigualdades no dia a dia das instituições também entraram em debate. A diretora de Atenção à Saúde do GHC, Rosana Nothen, chamou atenção para distorções ainda presentes na prática assistencial. ““A gente vê muitas formas de misoginia, racismo e homofobia e etarismo maquiados de decisões clínicas baseados em outros tipos de evidências que não contemplam a diferença entre as pessoas. Felizmente a comunidade internacional já está refletindo isso em várias publicações médicas, a nossa literatura vem sendo eivada de artigos científicos. Nossa população do GHC precisa expressar a diversidade de maneira contundente no dia a dia, na forma que a gente cuida das pessoas”, afirmou.
A pauta também se conecta diretamente ao enfrentamento à violência de gênero, especialmente no contexto local. A diretora de Inovação, Gestão e Educação do GHC, Quelen Tanize Alves da Silva, destacou o simbolismo da agenda justamente em março, o Mês da Mulher. “Para nós, em um dos Estados que mais matam mulheres no Brasil, receber as estatais neste momento e debater o enfrentamento à violência de gênero e ao feminicídio é muito significativo. Esse Pacto não fica somente no papel, ele precisa se traduzir em ações concretas no dia a dia. Estamos somando esforços para iluminar esse tema na sociedade”, disse.
Na sequência, Ilana Danielle Soares Santos, coordenadora-geral da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST), vinculada ao Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, ressaltou o caráter contínuo e estratégico do Pacto. “A ideia é que as empresas estatais pactuadas possam tomar medidas que permitam que todas as pessoas se sintam à vontade para contribuir com as missões de suas empresas. Diversidade e inclusão são direitos humanos, mas também uma estratégia de inovação”, afirmou.
Também presente na reunião, a coordenadora do Programa Pró-Equidade de Gênero e Raça do Ministério das Mulheres, Simone Scheffer, destacou a convergência entre a iniciativa e o Pacto, especialmente no incentivo à presença feminina em espaços de liderança. “A presença de mulheres em espaços de direção é um dos objetivos tanto do Pacto quanto do Programa Pró-Equidade. É uma iniciativa que tem grande sinergia com as estatais, promovendo ações de empoderamento, inclusão, permanência e ascensão das mulheres no mercado de trabalho formal”, disse.
Simone ressaltou ainda o papel estratégico das empresas no enfrentamento à violência de gênero. “As empresas têm um papel muito importante porque reúnem um grande número de trabalhadores e também influenciam a sociedade. É fundamental que todos falem sobre esse tema para que a gente consiga reduzir os índices de violência. Esse é o nosso objetivo”, completou.
A diretora da Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (SEST), Maria Abadia da Silva Alves, destacou a importância de ações estruturadas e baseadas em dados, além da realização de concursos públicos com políticas de cotas. “É fundamental conhecer o cenário em que estamos atuando para implementar ações mais efetivas. A ideia é criar ações estruturantes para as empresas estatais, para que, mesmo quando não estivermos nesses cargos, elas permaneçam e sejam perenizadas, garantindo continuidade nas próximas gestões”, afirmou.
A assessora da diretoria do GHC e integrante da Comissão Especial de Políticas de Promoção da Igualdade de Gênero (Cegênero), Carine Tellier, destacou os avanços na agenda de enfrentamento ao assédio nas empresas estatais. “Demos uma guinada no GHC a partir da incorporação do Guia Lilás da Controladoria-Geral da União (CGU), absolutamente alinhados ao que o governo federal já nos traz. Só no último ano, em 2025, realizamos 53 oficinas de combate ao assédio. Esse é o legado que queremos deixar para todos os trabalhadores”, afirmou.
Segundo Carine, o desafio agora é garantir que as ações sejam efetivas no cotidiano. “Para o Pacto da Diversidade ser vivo, e não apenas protocolar, a gente precisa se debruçar sobre essas questões no dia a dia, incorporar essas práticas e também transbordar esses temas para as demais estatais. É preciso estar internamente incorporado nas nossas relações. Se eu não consigo respeitar e tolerar um colega trans, como vou cuidar do usuário do SUS?”, completou.
Enfrentamento às desigualdades orienta ações do próximo ciclo
Ao longo do encontro, os grupos de trabalho consolidaram o plano de ações para 2026 e 2027, com iniciativas voltadas ao fortalecimento institucional das políticas de diversidade, equidade e inclusão nas estatais. Entre os encaminhamentos estão a criação de mecanismos de monitoramento, o desenvolvimento de indicadores, a ampliação de programas de capacitação e a implementação de ações afirmativas para enfrentar desigualdades de gênero, raça, etarismo e inclusão de pessoas com deficiência e neurodivergentes.
As propostas também envolvem o engajamento da alta liderança, a estruturação de normativos internos e a articulação com diretrizes já estabelecidas pelo governo federal, com o objetivo de garantir que o Pacto se consolide como uma política contínua e efetiva dentro das empresas.
Ato de adesão ao Pacto contra o feminicídio ocorre nesta quinta-feira (26)
Como desdobramento das discussões, o GHC recebe nesta quinta-feira (26), a partir das 8h30, o Ato de Apoio ao Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, no Teatro da Unisinos, em Porto Alegre. A atividade reúne representantes do governo federal e de empresas estatais para formalizar compromissos e ampliar a articulação em torno do enfrentamento à violência de gênero.
O ato inclui a apresentação e a assinatura do termo de compromisso das empresas com iniciativas concretas no enfrentamento à violência contra as mulheres. O GHC também formalizará uma parceria com o Observatório da Violência de Gênero da UFRGS.
Além da adesão ao Pacto, o encontro contará com painel com Denise Dora, advogada e ativista de direitos humanos, cofundadora da ONG Themis: Gênero, Justiça e Direitos Humanos, uma das principais organizações brasileiras de promoção dos direitos das mulheres, e Carmen Hein de Campos, advogada, professora e pesquisadora em direitos humanos, criminologia feminista e direitos sexuais e reprodutivos.
Créditos: Texto: Daiane Balardin / Fotos: Chico Lisboa