“Foram 17 dias difíceis, com medo, mas com muito apoio de toda a equipe médica e de enfermagem. Hoje, estar aqui participando desta celebração é uma felicidade muito grande.” O relato é de Milton Jacó Manfredini, paciente número 100 a realizar transplante de medula óssea pelo Grupo Hospitalar Conceição (GHC). Diagnosticado com mieloma múltiplo, ele participou, nesta quarta-feira (27), da atividade que celebrou a marca de 100 procedimentos realizados pela instituição.
O encontro reuniu profissionais, gestores, pacientes e familiares em um momento de reconhecimento a uma trajetória construída desde 2021, quando foi realizado o primeiro transplante no GHC. Ao longo desta trajetória, a área ampliou sua estrutura, qualificou protocolos e fortaleceu uma linha assistencial voltada a pacientes com doenças hematológicas graves. Esse período inclui a abertura do Hospital-Dia, o início da navegação dos pacientes de transplante, a inauguração do Centro de Oncologia e Hematologia (COH) do Hospital Nossa Senhora da Conceição, em novembro de 2024, e a chegada à marca dos 100 transplantes.
Avanço técnico consolida linha de cuidado em hematologia
O transplante de medula óssea, tecnicamente chamado de Transplante de Células-Tronco Hematopoiéticas (TCTH), é utilizado no tratamento de doenças hematológicas malignas e não malignas. O procedimento consiste na infusão de células-tronco hematopoiéticas com o objetivo de restaurar a função da medula óssea e favorecer a recuperação hematológica e imunológica do paciente.
Para o coordenador médico do Centro de Oncologia e Hematologia do GHC, Marcelo Capra, a marca demonstra o amadurecimento da estrutura implantada pela instituição. “Chegar aos 100 transplantes representa a consolidação de um trabalho construído por muitas mãos, com profissionais qualificados, protocolos bem definidos e uma estrutura voltada ao acompanhamento integral do paciente. É um tratamento de alta complexidade, que exige preparo técnico, monitoramento próximo e integração entre diferentes áreas”, destacou.
Os resultados clínicos também foram apresentados durante a celebração. A área registra taxa de sobrevida de 82% entre os pacientes transplantados e mortalidade relacionada ao TCTH de 0% até o D+100, período que corresponde aos primeiros 100 dias após o procedimento, considerados uma etapa crítica da recuperação. O tempo médio de internação é de 21 dias.
Além da marca alcançada, o evento também apontou para o futuro da assistência hematológica no GHC. A instituição anunciou a preparação para realizar seu primeiro transplante alogênico, modalidade em que as células-tronco vêm de um doador, que pode ser compatível aparentado, não aparentado ou parcialmente compatível. A previsão é que o primeiro caso seja realizado no segundo semestre de 2026. Atualmente, o GHC realiza a modalidade autóloga, na qual as células utilizadas são do próprio paciente.
Capra ressaltou que a preparação para essa modalidade representa uma nova etapa para o Centro de Oncologia e Hematologia. “O alogênico representa um novo patamar de complexidade. É um procedimento que depende de uma rede muito bem estruturada, desde a identificação de doadores compatíveis até o acompanhamento intensivo do paciente. Anunciar essa previsão mostra que o GHC está avançando de forma consistente para ampliar sua capacidade de tratamento em hematologia”, afirmou.
A identificação da compatibilidade entre doador e receptor é feita por meio de testes específicos a partir de amostras de sangue. Atualmente, em muitos casos, a coleta das células-tronco pode ser realizada com uma técnica semelhante a uma doação de sangue, em que o material é processado em equipamento próprio para separar as células necessárias. Com isso, nem sempre há necessidade de retirada direta da medula óssea em centro cirúrgico, embora essa alternativa ainda possa ser indicada conforme avaliação médica.
Estrutura pública amplia acesso a tratamento de alta complexidade
O diretor-presidente do GHC, Gilberto Barichello, ressaltou que a marca reflete a capacidade da rede pública de oferecer assistência especializada à população. Segundo ele, a inauguração do Centro de Oncologia e Hematologia foi decisiva para organizar e ampliar essa linha de atendimento dentro da instituição.
“Este é um momento de grande significado para o GHC e para o SUS. A realização de 100 transplantes mostra que a rede pública tem capacidade de oferecer cuidado altamente especializado, com qualidade, segurança e compromisso com a vida. A inauguração do Centro de Oncologia e Hematologia permitiu estruturar essa assistência e criar as condições para que conquistas como esta fossem possíveis. O sucesso do transplante é resultado do trabalho integrado de uma equipe multiprofissional comprometida com a excelência e com o cuidado”, afirmou.
A diretora de Atenção à Saúde do GHC, Rosana Reis Nothen, destacou o papel dos profissionais envolvidos desde a preparação até a recuperação. Segundo ela, o transplante exige conhecimento técnico, organização assistencial e acolhimento permanente.
“O transplante de medula óssea é um procedimento complexo, que mobiliza uma equipe multiprofissional durante todo o processo. São médicos, enfermagem, fisioterapia, nutrição, psicologia, farmácia, serviço social, banco de sangue, CCIH, gestão oncológica e muitos outros setores trabalhando juntos. Além do cuidado técnico, existe o cuidado humano, especialmente em um período difícil, de isolamento, medo e muita fragilidade para o paciente”, ressaltou.
Para a diretora de Inovação, Gestão do Trabalho e Educação do GHC, Quelen Tanize Alves da Silva, a celebração simboliza a potência do SUS e das equipes que atuam diariamente na assistência. “Cada transplante realizado representa uma vida acompanhada, uma família acolhida e uma possibilidade concreta de tratamento. Esta celebração reforça o papel do SUS em salvar vidas e garantir acesso a procedimentos de alta complexidade para quem mais precisa”, afirmou.
A navegação dos pacientes também foi apontada como parte fundamental dessa linha de atenção. A estratégia auxilia na compreensão das orientações, melhora a adesão ao tratamento, apoia a continuidade do acompanhamento e funciona como elo entre paciente e equipe. Até o momento, a gestão oncológica já realizou mais de 2,5 mil intervenções com pessoas atendidas na área.
Histórias que dão sentido ao marco
A atividade também teve espaço para relatos de pessoas que passaram pelo tratamento no Centro de Oncologia e Hematologia do GHC. Além de Milton Jacó Manfredini, paciente número 100, participaram da celebração Maria Helena Maier e Rogério Rocha dos Santos, que compartilharam experiências sobre o tratamento e a recuperação.
Para Milton, estar presente na comemoração foi uma forma de agradecer. Durante a internação, ele enfrentou dias de incerteza e medo, mas destaca o apoio recebido como parte essencial da recuperação. “A gente sente medo, porque é um tratamento muito intenso. Mas eu fui muito bem cuidado. A equipe médica e a enfermagem estiveram sempre perto, explicando, apoiando e dando força. Hoje, poder participar desse momento é uma alegria”, relatou.
O ato de celebração também contou com apresentações culturais e homenagens à equipe multiprofissional do Centro de Oncologia e Hematologia e a todos os pacientes que passaram pelo serviço desde o início da realização dos transplantes. O momento foi encerrado com um “parabéns” simbólico, marcando não apenas a conquista institucional dos 100 procedimentos, mas as muitas histórias de cuidado, superação e esperança construídas ao longo dessa trajetória.
Créditos: Gabriel Amaral (texto). Chico Lisboa (fotos).